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Despertar com Arte
05 de Janeiro de 2026

Nasci artista antes mesmo de saber o nome disso. Fui o menino que riscava paredes como quem abre janelas, deixando escapar traços tortos e cores inventadas que pediam passagem. A vocação só se revelou de verdade aos dezessete, quando entendi que aquilo não era brincadeira: era chamado. E aos vinte e dois, com meu primeiro emprego na cidade, pude comprar meu material de pintura — como quem recebe um segundo par de asas.

Minha infância em Bom Retiro foi um campo aberto de borboletas e flores. Corríamos livres, eu e as outras crianças, aprendendo com o vento a linguagem que ninguém ensina. A terra me educou cedo: primeiro como agricultor, depois como servidor público. Dois mundos distintos que ampliaram meu olhar — a paciência da semente, o rigor da cidade, e a arte sempre ali, silenciosa, esperando seu tempo.

Minha trajetória artística nunca foi fácil. Faltaram incentivos, políticas culturais, portas abertas. Sobrou persistência. Aprendi que o artista verdadeiro não nasce do aplauso, mas da insistência em não desistir. E o ponto de virada veio quando compreendi que sucesso é barulho, mas reconhecimento é raiz: profundo, essencial e duradouro.

Foi desse entendimento que nasceu o Despertar com Arte. Meu desejo era simples e ousado: transformar o dom que recebi gratuitamente em ação filantrópica acessível a todos. Quis que a pintura deixasse de ser privilégio e se tornasse ponte entre cultura, educação e ação social. Porque a arte — especialmente a pintura — é uma linguagem lúdica que devolve à criança e ao adolescente aquilo que a vida, às vezes cedo demais, tenta roubar: a liberdade de expressão.

Quando um jovem segura um pincel, algo se abre. Brotam sentimentos, desejos, coragem para mostrar o que antes era silêncio. A arte cria portas — e quando uma porta se abre, o mundo acompanha. Nas oficinas, vejo essa transformação acontecer sem alarde: a pintura desperta emoção, sensibilidade, criatividade. Ajuda cada um a olhar para dentro, a organizar suas emoções e a se conectar com o outro. Fortalece vínculos familiares, melhora o convívio social e cria espaços de afeto.

As mudanças são constantes e profundas. Crianças tímidas tornam-se mais amáveis. As reservadas fazem amigos. As inquietas encontram foco. As inseguras descobrem que também podem criar beleza. Todas saem mais sociáveis, mais sensíveis, mais vivas.

É isso que me move. Cada pincelada nas oficinas não colore apenas o papel — colore futuros.

Meu legado é simples: usar o que recebi de graça para fazer o bem e oferecer ao mundo aquilo que me moldou. A arte me deu asas. Agora, devolvo borboletas.

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